Cerâmica verde é referência para o País

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Por conta da sua prática sustentável, deixam de ser emitidas 300 toneladas de carbono por ano na atmosfera
Crato. Há dez anos, a Cerâmica Gomes de Matos (CGM), localizada nesta cidade da região do Cariri, a 567 Km de Fortaleza, começou uma metamorfose na sua produção que a tornaria referência até mesmo para o Ministério do Meio Ambiente (MMA). Criada em 1986, adota um modelo que privilegia a eficiência energética e a sustentabilidade.

Trabalha com três planos de manejo licenciados e acompanhados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), nas fazendas Pau d´Arco, no Crato; Canabrava, em Farias Brito e Boqueirão, em Assaré.

"As fazendas abastecessem quase toda nossa produção. Mas, buscamos também combustíveis alternativos que não venham da base da lenha e da biomassa florestal. Nesse sentido, trabalhamos com a poda de árvores urbanas. Como não temos aterro sanitário aqui no Crato, esse material ia todo para o lixão. Investimos nada menos do que R$ 400 mil em equipamentos para beneficiá-lo e transformá-lo em energia", explica o engenheiro florestal da CGM, Stephenson Ramalho.

Outra estratégia adotada pela empresa é recolher a biomassa da limpeza de quintais. "Fazemos isso no Crato e em Juazeiro. As pessoas nos ligam e mandamos o caminhão pegar. Também aproveitamos o excedente de pó das serrarias que ia para o lixão. No início, recebíamos gratuitamente. Hoje, formamos uma cadeia que permite às pessoas cadastradas recolherem o pó e nos repassarem mediante compensação financeira".

Para passar pelo crivo da CGM, o pó deve ser proveniente de serrarias legalizadas que se enquadrem em preceitos sustentáveis, desde a compra da madeira até a sua estrutura institucional. Outra atitude para otimizar a aquisição do material é adquiri-lo em Picos (PI). "Os caminhões que vão para lá carregados de tijolos voltam repletos de pó de serraria", observa Stephenson.

Carbono
Todas essas iniciativas fizeram com que, pelo quinto ano seguido, a empresa deixasse de emitir 300 mil toneladas de carbono. "Quando a gente queima esse material no nosso forno, emite carbono. Se for para o lixão, a emissão é de metano, que é vinte vezes mais poluente", compara Stephenson.

A CGM trabalha com uma linha de pelo menos vinte produtos diferenciados, como telha prensada, colonial e romana. Outra novidade é o meio bloco, que evita desperdícios na construção: "Como se sabe, os pedreiros quebram muitos blocos durante a obra. A cada milheiro vendido, incluímos um meio bloco para atender a essa demanda".

A maneira sustentável de operar atrai anualmente centenas de visitas de empresários do ramo de todo o País e autoridades.

FIQUE POR DENTRO
Além de 60% de biomassa alternativa, é feito o manejo florestal
A Cerâmica Gomes de Matos (CGM) foi criada em 1986, portanto, há 26 anos. Mantém várias áreas do chamado remanejamento, que consiste numa faixa de terra de onde provém a lenha para queima nos fornos. Esta área é dividida igualmente em dez partes. Todo o manejo é acompanhado por órgãos competentes, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O processo funciona da seguinte forma: cada décimo da terra é explorado no período de um ano. Após esse período, a extração da lenha passa para a segunda parte da terra e assim sucessivamente até chegar na décima parte. Quando isso ocorre, aquela primeira parte já está em condições de ser explorada novamente, pois floresceu e se recuperou ao longo dos dez anos passados. Dentre as áreas de remanejamento, existe a da Fazenda Pau d´Arco que conta com 200 mil tarefas de terra. Também é feito o reflorestamento com árvores nativas ou de madeira de rápido crescimento, como é o caso dos eucaliptos. Ronaldo Gomes de Matos, um dos sócio-diretores da CGM, ressalta que "a madeira das florestas de manejo é renovável e, aliado a isso, trabalhamos com cerca de 60% de biomassa alternativa. As empresas estão buscando cada vez mais essa opção que, um dia, pode ficar também escassa".

Mão de obra feminina dá toque de qualidade à produção de tijolos
Uma das práticas adotadas pela Cerâmica Gomes de Matos contribuiu ainda mais para evitar o desperdício: a contratação de mulheres. Hoje, elas já são em número 15, de um total de 180 trabalhadores.

"Depois que elas chegaram, o desperdício diminuiu consideravelmente, além de um cuidado especial com a produção", assegura o engenheiro florestal Stephenson Ramalho.

Há sete meses, Lucilene Pereira Pascoal, 34 anos, até então trabalhando como doméstica, tomou conhecimento de que ali mesmo na sua terra, no Crato, existia uma cerâmica que estava recrutando mão de obra feminina. "Pensei que fosse algum tipo de brincadeira. Apesar disso, não custava nada e resolvi arriscar, a não é que era mesmo verdade", conta sorridente.

Poucos dias depois, Lucilene exibia com orgulho sua carteira trabalhista assinada pela primeira vez. "Para a maioria das pessoas pode parecer uma coisa simples. Para mim, foi a realização de um sonho. O trabalho me transformou numa verdadeira cidadã", afirma.

Divorciada, Lucilene explica que o salário lhe permite sustentar os filhos Bruno, de 11 anos, e Gabriel, de seis. "O ambiente de trabalho é ótimo. Há muita organização e respeito por parte dos homens e posso pagar as minhas contas em dia sem qualquer problema. Ainda sobra um dinheirinho que resolvi investir num consórcio de moto, para inveja do meu ex-marido", revela em tom de brincadeira.

A responsável por todo o setor de licenciamento ambiental da CGM também é uma mulher, a técnica em saneamento ambiental Dagonelli Lemos. É ela quem encaminha a documentação para órgãos como o Ibama, ICMBio, Semace, DNPM e Secretaria Municipal do Meio Ambiente, dentre outros.

"A presença da mulher aqui é irreversível. Já se fala em aumentar o número delas. Tomamos conhecimento de que a nossa iniciativa está sendo copiada por outras cerâmicas da região. Isso é muito gratificante", enfatiza.

Além das mulheres dando o seu toque de economia à produção, uma medida que ajudou a assegurar a sustentabilidade do empreendimento foi a construção de um galpão para estocar o barro, promovendo uma redução de 60% no uso de água. Antes, a céu aberto ocorria grande evaporação e era preciso molhar constantemente a matéria-prima para a fabricação de tijolos.

A sobra da produção é toda reaproveitada, voltando à jazida. Por conta de todas essas medidas adotadas ao longo de dez anos, a cerâmica explora apenas 10% de toda a área que tem direito a escavar, diminuindo em muito os impactos causados à natureza na região do Cariri.

FERNANDO MAIAREPÓRTER

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